Durante os 90 minutos dentro do jogo, os técnicos tem uma parcela mínima de atuação, e ao mesmo tempo, eles podem prejudicar e muito o andamento individual dos jogadores se fazem muitas intervenções e desrespeitam a singularidade dos atletas; isso inclui também no processo semanal de treino, dependendo do que os treinadores fazem, podem perder muitos talentos.

É claro que eles tem um papel decisivo nas escolhas globais e na forma como organizam a equipe. O principal problema é não se despir do ego de ser treinador, do papel de  ‘manda-chuva’ às vezes,  de realizar algumas intervenções desnecessárias e vazias e negligenciar o jogo (que também é dos jogadores na hora que a bola rola).

E isso tudo faz nascer um padrão que cada vez mais se deve passar na cabeça de muitos treinadores: será que o que realizam diariamente e principalmente a pressão de vitória, vem diminuindo a capacidade individual do jogador? Será que eles estão  perdendo suas peculiaridades?

O estilo de vida moderno do técnico, o acesso a uma enxurrada de informações vagas, os modismos, e especialmente a vaidade própria da profissão, me fez questionar esse comportamento, já que atualmente os holofotes em cima dos treinadores estão cada vez mais gigantescos.

O treinador tem se sentido o todo-poderoso, mas poucos enxergam que isso arrasta algumas adversidades que afeta especialmente a dimensão individual do jogador e essa dimensão é a descoberta do jogador com seu próprio talento e a observação do treinador para desenvolver e lapidar esse talento.

O jogador com sua capacidade natural, se tiver inserido em um ambiente adequado, cercado de pessoas pacientes, que o ouvem, que queiram desenvolver essa capacidade, com o passar dos dias vai reconhecer seu pontencial, o que ele tem de melhor e o que ele sabe fazer bem com naturalidade. Essa identificação não nasce de um dia pro outro, é um processo e que vai se desenvolvendo à medida de cada dia que ele redescobre seu talento de jogo. Esse redescobrimento vai criar também uma paixão maior pelo jogo e um compromisso com seu talento e automaticamente com seu time e clube. Também vai criar um espírito de atitude que o fará ter um compromisso individual para desenvolver outras habilidades e se aprimorar no que já sabe. Ou seja, o jogador começa conhecer sem perceber cada vez mais sua individualidade.

Mas hoje em dia o problema, é que, a capacidade individual de cada jogador, muitas vezes é vencida pelo ego do treinador em querer ganhar a qualquer custo, botar mais pressão do que os atletas aguentam, achar que o jogo se fabrica apenas por ele, por suas ideias e táticas ou por uma poção mágica de jogo.

O fato de haver uma valorização excessiva na atuação do técnico (ainda mais no sentido de criar uma forma de jogar sem nem mesmo observar a capacidade natural de seus jogadores) cria argumentos irracionais e absurdos com a verdadeira atuação. Contudo, deve-se ter muito claro que o objetivo principal, além de vencer, é ajudar os jogadores a ampliarem seus talentos.

Os treinadores carregam uma bagagem de aprendizagem, enxergando cada jogador com suas particularidades, por isso é bom reforçar que o papel deles não é tentar fazer os jogadores virarem reflexos do que eles ordenam, mas sim que eles se aprimorem, desenvolvam individualmente e que lutem pela sua autonomia dentro de campo, não abandonando claro, a coletividade também.

Agora, se quiser que os jogadores sejam fabricados como séries de produtos enlatados e saiam todos iguais e acha que assim vai resolver todos os problemas, está tremendamente enganado, pois acabam tirando o brilho natural e o conteúdo individual que cada jogador arrasta consigo pra dentro do clube. E é isso que dá personalidade ao time.

Cabe aos treinadores saberem que qualquer tarefa feita, que qualquer atitude estranha, vai acarretar sequelas positivas ou negativas nesse desenvolvimento individual do jogador. Por isso, muitas ideias, muitas frases prontas que parecem modernas podem ser limitadoras e outras mais simples podem ser libertadoras. Tudo é questão de sincronia com a turma e organização das ideias.

Ser um treinador de futebol pode ser diretamente comparável a ser um artesão, pois eles moldam o atleta até chegar no que seria o produto final: um craque.

O treinador deve ser feliz e ficar satisfeito com o progresso do atleta, afinal ele acompanhou toda essa luta até a vitória. É como se o treinador fosse o pai de toda a galera do time e todo pai que se preze quer ver os filhos progredindo e mandando bem. É um prazer imenso ver os jogadores crescerem, tanto fisicamente, quanto na questão de maturidade e aprenderem novas habilidades.  O segundo prazer é a vitória que se obtém com esses jogadores.

Agora vou dar algumas dicas de como os técnicos podem aliviar a pressão da turma:

Seja transparente

Se observou que a motivação e desempenho dos jogadores estão caindo, ficar em silêncio não vai ajudar nada nem ninguém, só piora. O ideal é chamar a galera toda do time para uma reunião e procurar saber o motivo dessa perda de qualidade para poderem driblarem essa adversidade.

Defina prioridades e metas

Aproveite a reunião de alinhamento com o time para definir o que é prioritário nos treinos e defina as metas de realizações a serem trabalhadas.

Converse com outros profissionais

Ninguém nasce sabendo tudo, né?! Se estiver meio perdido em relação a algo, ou até mesmo não sabe por onde começar a ajudar seus atletas a desenvolverem suas habilidades individuais, busque saber as estratégias de outros técnicos, busque referências externas e use seu instinto.

Dê tempo a seus jogadores

Cada jogador tem sua particularidade mental e biológica. Respeite seus limites e sempre os incentive a quebrar barreiras. Desse modo eles não ficam na zona de conforto e podem se aprimorar cada vez mais.

Não faça comparações

Jamais compare um feito que um jogador fez com o que outro fez ou deixou de fazer. As pessoas são diferentes. Não existe somente um ‘jeito certo’ de fazer as coisas. Várias tarefas podem ser atingidas usando métodos diferentes.

Bom, que fique claro, que ter individualidade não deve ser o único meio a ser explorado pelo time, afinal, é um time! Porém, é bom incitar o desenvolvimento de cada jogador e perceber que a partir daí pode render bons frutos para a equipe.