No Brasil, temos a ideia de que o futebol é democrático e a paixão pelo time une todas as pessoas, porém o que temos visto no nosso país é exatamente o contrário.

O futebol se tornou popular ao redor do mundo devido a inúmeros aspectos, dois deles se sobressaem aos nossos olhos: em primeiro lugar por ser um esporte democrático e simples, que pode ser praticado em diversos terrenos e com apenas uma bola, não importando o seu material, desde as bolas tecnológicas com materiais sintéticos a bolas de meia ou de jornal; em segundo lugar: é o fato do futebol ser um esporte que não se limita a apenas um biotipo específico, mas abrange todas as pessoas  com corpos distintos permitindo assim todo mundo se divertir.

No futebol temos ídolos grandalhões, vide Ibrahimovic, mas também tem os baixinhos tipo o Romário, tem o franzino Messi, o magro esguio tipo o Sócrates e os com mais corpo estilo Maradona, aliás, também baixinho. O futebol pode ser um esporte para atletas com corpos quase perfeitos atleticamente como é o caso do Cristiano Ronaldo, que parece que saiu mais de uma revista de modelos, como também para o Douglas que foi considerado “gordinho”. O futebol é de todos porque é para todos.

O futebol não é apenas um jogo, é muito mais que isso. No decorrer da sua história, o esporte que nasceu na Inglaterra e ganhou o coração do mundo todo, passou por várias transformações, mas preservou sua essência que é juntar um monte de gente em torno de uma bola e captar emoções de pessoas diferentes.

Ao longo de sua trajetória, o futebol foi instrumento utilizado tanto para opressão, tal como as vezes que fora utilizado por ditaduras sanguinárias, quanto para libertação, como esquecer o Dínamo FC, time que ousou desafiar Hitler e o nazismo? Estes bravos jogadores que jogaram um jogo sabendo que se ganhassem seriam assassinados e, no entanto decidiram ganhar. Na morte deram uma lição de coragem, dignidade, de vida e honra.

Esporte e homofobia, infelizmente, sempre tiveram uma relação muito próxima. Robert Connell afirma que a homofobia tem e sempre teve uma relevante função nas dinâmicas intramasculinas. Isto porque o esporte, especialmente os de contato, geralmente carrega uma ideia da masculinidade produzida e definida: o atleta é pensado como o ideal do que é ser um ‘homem de verdade’  e este ideal não seria compatível com a representação de feminilidade ou da homossexualidade.

Não é novidade para ninguém que o ambiente do futebol é homofóbico. Quem vai ao estádio costuma ouvir palavras como ‘bicha’ e ‘veado’ sendo usadas como xingamentos. A manifestação homófobica no esporte não se dá por meio de assassinatos, mas sim por meio da violência verbal, manifestada inúmeras vezes pela torcida ou pelos atores envolvidos no contexto esportivo.

O Brasil ainda é o país que mais mata homossexuais no mundo ainda — e o número de vítimas continua subindo. Segundo dados da Rede TransBrasil e do Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2016 foram um total de 144 mortes. Em 2017, o valor subiu em 18% em relação ao ano de 2016, no mínimo chocante.

Contudo, a legislação esportiva brasileira parece não colocar esforço para a prevenção da homofobia, uma vez que não existe qualquer disposição singular que a coiba especificamente.

As normas que mais se aproximam desta finalidade são aquelas que busquem garantir a dignidade da pessoa humana ou a segurança e integridade física e moral do participante.

Com esse olhar temos o art. 2º da Lei 9615/1998 (Lei Geral do Desporto) que assim dispõe:

Art 2º – O desporto, como direito individual, tem como base os princípios:

(…)

XI – da segurança, propiciado ao praticante de qualquer modalidade desportiva, quanto a sua integridade física, mental ou sensorial.

De seu turno, o Estatuto do Torcedor (Lei 10.671/2003) fixa, em seu art. 13-A:

Art. 13-A. São condições de acesso e permanência do torcedor no recinto esportivo, sem prejuízo de outras condições previstas em lei:

(…)

IV – não portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, inclusive de caráter racista ou xenófobo;

V – não entoar cânticos discriminatórios, racistas ou xenófobos;

Podemos ver que o Estatuto do Torcedor coibiu explicitamente o racismo e a xenofobia, mas aparentemente se esqueceu da homofobia, que pode se inferir compreendida na disposição abrangente das mensagens ofensivas e cantos discriminatórios.

É triste constatar que a legislação esportiva brasileira, tal como a legislação geral do país ignora o vocábulo “homofobia”, a despeito de vivermos no país que mais extermina homossexuais em todo o planeta. Eu só espero que essa realidade possa ser alterada o mais rápido possível.

Relembre o caso Richarlyson

Um dos jogadores mais marcados pela homofobia é Richarlyson. Desde que chegou ao São Paulo, em 2005, o jogador sempre foi estereotipado como gay, mesmo sem nunca ter dado nenhum esclarecimento sobre isso. Palmeron Mendes, presidente do atual clube de Richarlyson, o Guarani, afirmou que a carreira do jogador nunca foi afetada por isso. Mendes exaltou as qualidades do volante e julgou a trajetória de Richarlyson como vitoriosa.

A polêmica sobre a sexualidade de Richarlyson começou em 2007, quando o diretor administrativo do Palmeiras ainda era José Cirillo Júnior, e ele insinuou, em um programa TV, que o jogador seria gay. Richarlysson se declarou heterossexual. Os advogados entraram com uma queixa-crime contra o dirigente. A confusão, além do preconceito, aumentou quando o juiz do caso arquivou o processo dizendo que o que não se mostra razoável é a aceitação de homossexuais no futebol brasileiro porque prejudicaria a uniformidade de pensamento da equipe. O entrosamento, o equilíbrio, o ideal ( o quê???).

O assunto só piora. Bem no começo quando Richarlyson foi apresentado ao Guarani, dois torcedores soltaram bombas no estádio deles (Brinco de Ouro da Princesa) no momento da apresentação do volante.

Em abril desse ano, Richarlyson esteve no Programa do Porchat e comentou sobre o assunto. Ele criticou as atitudes machistas e homofóbicas, mas evitou falar sobre si e suas experiências desagradáveis quanto a isso.  Mesmo sem se declarar homossexual, Richarlyson ficou marcado como tal.

Esse foi só um exemplo de caso famoso do que rola constantemente no futebol. As coisas precisam mudar, e rápido.

Ao fazermos a pesquisa rápida vemos que o futebol é um ambiente extremamente homofóbico onde a exclusão social de homossexuais é vista pela sociedade como algo normal. Jogadores não querem conviver com homosexuais, pois não querem ser confundidos com eles, e julgam que eles não tem capacidade de encarar uma partida de futebol de igual para igual. Isso não faz sentido nenhum.

Desde quando orientação sexual determina desempenho dentro de campo? O que nos resta é trabalhar esse preconceito começando dentro de nós mesmos e esperar que a sociedade caia na real e pare de ser preconceituosa.

Fontes:

http://esporte.ig.com.br/futebol/2012-07-31/mesmo-com-biotipo-de-gordo-douglas-agrada-comissao-mesmo-sem-dar-carrinho.html

http://sportv.globo.com/site/programas/ta-na-area/noticia/2017/07/richarlyson-sobre-homofobia-e-vazio-tao-pequeno-para-aquilo-que-eu-sou.html

https://pragmatismo.jusbrasil.com.br/artigos/305917308/chegou-a-hora-de-falar-de-homofobia-no-futebol

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9615consol.htm

CONNELL, Robert. Hegemonic masculinity: rethinking the concpet. Gender & Society, Sydney, v. 19, dez.. 2015. Disponível em: http://gas.sagepub.com/content/19/6/829.short