Nos último anos, viemos acompanhando o comportamento nada aplaudível dos árbitros e dirigentes em favor de certos clubes, sem contar o desinteresse da grande mídia econômica que, aos poucos, está favorecendo financeiramente alguns clubes e assassinando outros, tão importantes no cenário nacional. Você já ouviu falar da ‘espanholização’ do futebol?

Quando a gente fala sobre o direito de transmissão no futebol, é impossível não falar de polêmica. Hoje, os direitos televisivos são a principal fonte de receita para os clubes e, por outro lado, geram audiência e patrocinadores para os seus detentores.

Atualmente, os direitos de transmissão no Brasil (tanto dos canais abertos quanto os fechados) são negociados individualmente entre as emissoras e os clubes.

A TV brasileira, que acabou se tornando na principal fonte de receita dos clubes, sem qualquer constrangimento acaba favorecendo o Flamengo e Corinthians, em troca da audiência, deixando os demais clubes, o futebol nacional e o torcedor à margem de suas reais e verdadeiras intenções comerciais.

Em 2016, o Flamengo foi o campeão da TV, disparado à frente dos demais concorrentes. Afinal, o time rubro-negro faturou R$ 216 milhões apenas de dinheiro vindo das cotas de transmissão. O valor é mais do que 50% do Flamengo na temporada passada, que ficou na casa de expressivos R$ 408 milhões. É o que mostra estudo do Itaú BBA.

A análise da instituição financeira mostra, que o Corinthians teve receitas de R$ 336 milhões no mesmo ano, sendo R$ 150 milhões do montante total advindos da televisão (o valor é R$ 38 milhões superior ao ano anterior, mas R$ 4 milhões inferior a 2012, quando o clube foi campeão mundial).

O Itaú BBA ainda expllica que, no Brasil, os 12 clubes grandes concentram 72,5% das receitas de TV, sendo que o maior deles, o Flamengo, fica com 10% do total, e a distância dele para o bloco seguinte é de 4%. Ou seja: não houve a tal da “espanholização”.

Origem do termo

O emprego do termo ‘espanholização’ decorre do fato de que, na Espanha, como agora acontece aqui, Barcelona e Real Madrid são privilegiados e embolsam a maior parte da verba de transmissão, em detrimento dos demais clubes.

Um especialista em marketing esportivo chamado Amir Somoggi cunhou o termo “Espanholização”. Esse termo ganhou popularidade logo depois que a implosão do Clube dos 13, ganhou força entre os times nacionais que passaram a negociar os seus próprios contratos com a detentora dos direitos televisivos (Rede Globo) que, segundo o site Futebol Business, pagou pelo período de 3 anos (2012 -2015) R$ 2,7 bilhões pelas partidas da série A, no canal aberto e nos fechados, sem contar o pay-per-view.

Diante disso, podemos ver que o futebol brasileiro caminha em passos largos em direção à espanholização. O principal motor desse processo é a distribuição das cotas de TV, segundo levantamento do Itaú BBA.

O termo se refere à situação da Liga BBVA (Espanha), na qual Real Madrid e Barcelona abocanham 55% da receita total do campeonato e boa parte dos títulos nacionais.

O assunto voltou à tona, depois que a maioria dos clubes se recusaram a renovar por mais duas temporadas, os direitos de transmissão do Brasileirão com a Globo, pois estavam insatisfeitos com os valores oferecidos por ela.

É unânime para a maioria dos dirigentes, que a distribuição desigual dos recursos advindos de transmissão e direitos de imagem do Brasileirão, poderia levar à “espanholização” do futebol brasileiro e poderá causar até mesmo o fim de muitos clubes pequenos.

Aqui no Brasil, ainda que a diferença entre o clube que mais recebe e o que recebe menos seja bem menor que acontece na Espanha (12 vezes), mas a preocupação ainda é evidente e válida.

A Rede Globo vem tentando convencer os clubes que o cenário no Brasil é muito diferente do cenário da Espanha (Barcelona e Real Madrid ficam com aproximadamente 40% de toda a arrecadação, o resto dos 60% ficam pra as demais equipes), o que ajuda a explicar a disparidade de elencos da dupla com os concorrentes. De acordo com a emissora, Flamengo e Corinthians ficariam com “apenas” 20% da receita total.

Vamos comparar:

A “Premier League” (primeira divisão do futebol inglês), a fórmula utilizada tenta manter a competitividade entre os clubes. Lá, 70% do valor total é dividido em partes iguais pelos 20 participantes, o que sobrou (30%) é divido de acordo com a classificação da equipe na competição (15%) e pela média de audiência por ela alcançada (15%).

No “Calcio” italiano, é usado um critério semelhante, onde 40% são divididos em partes iguais, 30% de acordo com o desempenho e os outros 30% considerando o tamanho das torcidas de cada clube. Já, na liga alemã, a Bundesliga, os direitos são repartidos em partes iguais entre todos os participantes da competição.

Se são justos ou não, os modelos adotados nas principais ligas europeias, (exceto a espanhola), parecem satisfazer as necessidades de seus clubes.

No Brasil, porém, a escolha do modelo não poderá estar se desassociando do fim do monopólio nas transmissões, altamente prejudicial aos clubes, pois impedem a concorrência e, com ela, valores maiores.

Da mesma forma, parece razoável acreditar que os clubes (principalmente os menores) se beneficiariam caso a venda dos direitos fosse feita de forma coletiva, e não individualmente igual acontece hoje.

A junção do fim do monopólio nas transmissões + a venda coletiva de direitos, parece ser o caminho mais apropriado para equilibrar e manter a competitividade do Brasileirão.

Os clubes precisam se unir. Chega de notas oficiais patéticas quando eles são beneficiados. Tá na hora de exigir uma profissionalização capacitada. A partir de quem a comanda. É um absurdo ter diferença de valores e os clubes serem coniventes com isso.

É justo que o time com mais torcedores inscritos no pay per view receba valores maiores por isso.

O modelo ideal no Brasil seria parecido com a da Premiere League: 70% dividido, e os outros 30% de acordo com audiência e posição na tabela. É um modelo que não gera desequilíbrio e nem injustiça, já que no fim das contas o campeão receberia mais que o último colocado, porém o ultimo colocado não receberia uma quantia pífia.

Esse critério de mensurar o tamanho da torcida tem de ser discutido. No Brasil nunca houve uma pesquisa séria e de qualidade.

Reformulação

Depois de tanta polêmica, em 2017, a Globo confirmou a reformulação das cotas dos clubes.

A nova divisão só passará a ser válida em 2019, com duração de 6 anos.

O modelo que passará a valer prevê 40% da receita dividida igualmente entre os clubes, 30% tendo como critério o número de jogos transmitidos na TV aberta e fechada e 30% distribuídos de acordo com performance dos clubes no mesmo ano. Também foi discutido sobre a distribuição dos jogos entre a TV aberta e em pay-per-view. A mudança tentou evitar a perda de clubes por conta da proposta maior feita pelo Esporte Interativo (TV fechada). A emissora ofereceu 5x mais que o valor da Globo/SporTV.

Essa mudança de cotas em 2019 do Brasileirão, exigirá dos clubes um ajuste nas suas contas, por alterar as datas dos pagamentos aos times.

Fontes:

 https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/a-distribuicao-dos-direitos-de-transmissao

 http://www.mktesportivo.com/2015/07/bundesliga-os-valores-referentes-aos-direitos-de-transmissao-do-campeonato-alemao/

 https://rodrigomattos.blogosfera.uol.com.br/2016/02/23/globo-confirma-mudanca-na-divisao-de-cotas-de-tv-no-brasileiro-2019/

 https://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2017/03/25/globo-apresenta-a-clubes-novo-modelo-de-divisao-de-cotas-no-futebol.htm

 https://www.itau.com.br/itaubba-pt/